Não era fácil a adolescência de quem gostava de “disco” e de punk. Ao mesmo tempo. De dia, trancado no quarto, tentando entender o que acontecia com minha cabeça quando eu ouvia pela enésima vez “The Clash” – o álbum de estreia de uma das bandas mais influentes de todos os tempos. De noite, tentando convencer algum porteiro que eu não tinha só 14 anos e merecia entrar nessa ou naquela discoteca para ouvir o último sucesso de Andrea True Connection – acredite: houve mais de um.
Como já disse em várias entrevistas – e martelei à exaustão no meu livro “De a-ha a U2” – minha formação musical foi um tanto bipolar. Se na infância e pré-adolescência eu era submetido a impulsos sonoros tão variados como as coletâneas de Ray Conniff, os batuques de Clara Nunes, o bizarro arranjo de Waldo de los Rios para a Sinfonia 40 de Mozart (!), Chico e Caetano ao vivo, e a trilha sonora de “Sacco e Vanzetti” (que recomendo aqui numa rara gravação ao vivo por Joan Baez) – isso para dar apenas alguns exemplos dos LPs que figuravam na coleção de discos dos meus pais –, quando pude escolher o que queria ouvir, vi-me diante de decisões tão ecléticas quanto essas primeiras audições. Que de certa maneira – e isso, não tenho dúvidas, é algo a comemorar – acabou orientando toda a minha curiosidade musical nesses nem tão cansados assim 49 anos.